6 de setembro de 2026
Toda vez que eu acordo
A vida parece longa enquanto a vivemos, mas basta olhar para trás para perceber que anos inteiros passaram como uma única noite.
Toda vez que eu acordo
Um dia eu fui dormir
e tinha oito anos.
Não lembro quando a noite chegou,
nem quando deixei de ser criança.
Só sei que abri os olhos
e tinha quinze.
Estranhei um pouco,
mas pensei que ainda havia tempo.
Tempo demais.
Uma vida inteira pela frente.
Então dormi novamente.
Quando acordei,
tinha vinte e dois.
Algumas pessoas já tinham ido,
alguns sonhos também.
Outros tinham acabado de nascer.
Havia lugares onde eu não fui,
palavras que não disse,
abraços que adiei
e momentos que achei
que poderiam esperar.
Mas tudo bem.
Eu ainda era jovem.
Ainda havia tempo.
Então fechei os olhos
só por mais uma noite.
E acordei com trinta e três.
Foi aí que comecei a desconfiar
que talvez a vida fosse isso:
um intervalo curto
entre acordar e adormecer.
Porque oito anos viraram quinze,
quinze viraram vinte e dois,
vinte e dois viraram trinta e três,
e eu sequer percebi
quando os anos passaram pela porta.
Eu vivi.
Eu ri.
Eu perdi.
Eu amei.
Eu errei.
Eu aproveitei algumas coisas
como se não houvesse amanhã
e desperdicei outras
como se houvesse amanhãs infinitos.
Mas, ainda assim,
quando olho para trás,
parece tão pouco.
Mesmo aquilo que vivi intensamente
agora cabe em uma lembrança
de poucos segundos.
E o que me assusta
não é ter trinta e três.
É saber que, nesse ritmo,
vou dormir hoje
e acordar com oitenta.
Vou olhar para minhas mãos,
para o lugar onde estou,
para tudo aquilo que deixei para depois,
e talvez me perguntar:
Por que continuei no mesmo lugar,
vivendo do mesmo jeito,
se eu já sabia
que toda vez que fechava os olhos
uma parte da minha vida desaparecia?
Porque um dia tive oito.
Ontem, quinze.
Há algumas horas, vinte e dois.
Agora, trinta e três.
Amanhã, talvez, oitenta.
E depois...
Depois talvez eu feche os olhos
mais uma vez.
Mas dessa vez
não haverá idade nova,
não haverá manhã,
não haverá outro "depois".
Dessa vez,
eu só dormirei.
Talvez seja por isso
que a vida seja tão efêmera:
não porque dure pouco,
mas porque, enquanto acontece,
temos a estranha sensação
de que vai durar para sempre.